A árvore e o motorista
Conheço, de passagem, um ipê. Fica o dia todo
naquele quadrado de terra; oásis na calçada cimentada a poucos metros de um insano
cruzamento de vias. Nem grande, que mereça a admiração dos pedestres; nem
pequeno, que os incivilizados arranquem; apenas médio, o suficiente para os
coletivos quebrarem os seus galhos. Fica amarelo uma vez ao ano. Sabe-se lá de
onde brota tamanha força de vontade de florir, para depois despejar suas
sementes no asfalto e ainda receber os desaforos dos varredores. É possível que
ele não saiba que está ali, deveriam desculpá-lo por semear a sarjeta. A culpa
é da propaganda oficial: aquele metro de terra nua ajuda a absorver a água da
chuva; e reduz as doenças pulmonares por causa da purificação do ar. É a
história anunciada, mas a vizinhança pensa diferente quando leva seus pets para
aliviar no seu espaço. Talvez ele seja um ponto. Isso mesmo, um ponto. Se existe
ponto de ônibus, há existir ponto de caminhão de lixo, são ao seu redor que se
juntam os sacos do quarteirão ao final do expediente. O povo fica amontoado num
ponto esperando para ir embora, e o lixo no outro. Se ele não sabe que está
ali, provavelmente nem pense nessas coisas. Será que sente? Se sente, deve ser
um grande zombeteiro, porque insiste em crescer, lento, é certo, qual o
trânsito no sinaleiro, um centímetro por ano.

