quarta-feira, dezembro 25, 2013

A árvore e o motorista

Conheço, de passagem, um ipê. Fica o dia todo naquele quadrado de terra; oásis na calçada cimentada a poucos metros de um insano cruzamento de vias. Nem grande, que mereça a admiração dos pedestres; nem pequeno, que os incivilizados arranquem; apenas médio, o suficiente para os coletivos quebrarem os seus galhos. Fica amarelo uma vez ao ano. Sabe-se lá de onde brota tamanha força de vontade de florir, para depois despejar suas sementes no asfalto e ainda receber os desaforos dos varredores. É possível que ele não saiba que está ali, deveriam desculpá-lo por semear a sarjeta. A culpa é da propaganda oficial: aquele metro de terra nua ajuda a absorver a água da chuva; e reduz as doenças pulmonares por causa da purificação do ar. É a história anunciada, mas a vizinhança pensa diferente quando leva seus pets para aliviar no seu espaço. Talvez ele seja um ponto. Isso mesmo, um ponto. Se existe ponto de ônibus, há existir ponto de caminhão de lixo, são ao seu redor que se juntam os sacos do quarteirão ao final do expediente. O povo fica amontoado num ponto esperando para ir embora, e o lixo no outro. Se ele não sabe que está ali, provavelmente nem pense nessas coisas. Será que sente? Se sente, deve ser um grande zombeteiro, porque insiste em crescer, lento, é certo, qual o trânsito no sinaleiro, um centímetro por ano.