domingo, fevereiro 26, 2012
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Fantasia
A cabeça. Depois, meio corpo. Corpo inteiro. Há tempos sua moradia no arquivo era conhecida. Nunca afugentei; ao contrário, já pensava apelidá-la. Fingia não vê-la correr para as pastas quando entrava na sala. Agora, denuncia-se de corpo inteiro. Aonde vai?
- É carnaval.
- E daí?
- Vou sair.
- Sair por quê? E o escritório? Vai deixá-lo aos pernilongos?
- Resolvi desfilar.
- Desde quando lagartixa desfila?
- O jornal de ontem, que ficou aqui na estante, só tinha branquela na Sapucaí. Tomei coragem. Quem sabe eu também poderia...
- Já arrumou a fantasia?
- Afrodite.
- Afrodite?
- É. Por quê? Não pode?
- Pode. Foi só uma estranheza. Bem original.
- Achei bonito.
- Volta quando?
- Está cobrando?
- Não. Não. Pra saber se deixo a janela aberta.
- Quando apagar a luz da avenida.
- Medo de escuro?
- Ouvi dizer que é sempre assim. Quando a luz da avenida se apaga, a fantasia desaparece, a gente volta a ser lagartixa de escritório.
Silenciei. Ela saiu, e até agora não voltou. Quem sabe, amanhã...
