domingo, novembro 25, 2012

Olhares


Aconteceu no final de semana. Explico. Arriei mochila, soltei o cadarço das botas e resolvi abrir o meu farnel à sombra de frondosa árvore. Foi o bastante. Lá estava ele com a avidez de um farejador. Um sagui. Ficamos algum tempo paralisados, olho no olho – diga-me sagui, o que é essa tal de Black-Friday? Por que devo comprar se nada me falta? Ele não respondeu. Parece que não estava interessado na minha filosofia. Ah, sim, a banana; quer um pedaço? Pronto. Um companheiro apareceu. Um pedacinho para você também. Mais? De repente, a família toda; e não arredaram pé enquanto havia estoque. Chega. Acabou. Está na hora de seguir trilha. Levantei acampamento e eles ficaram lá pulando de galho em galho à procura de mais ofertas sem me responder – o que é essa tal de Black-Friday?

domingo, novembro 11, 2012

Voo inaugural


Cria da casa. Rebento único de três ovos. Aninhado num tufo de orquídea. Bico de recém-chegado. Penas meladas. Joga-se para o desconhecido sob olhar atento. Não voa. Salteia. Embrenha-se nos arbustos para desespero da sabiá que o perde de vista. Pios maternos. Revoadas de busca. Uma minhoca escapa do gramado contorcendo-se na pedra quente. A refeição balouça para alimentar a cria. Vai e vem por uma semana alando-se, conquistando alturas até se agarrar ao galho qual ensinado. Voa. Anônimo. Alguém há de apreciar seu canto. Uma mãe há de apontá-lo ao filho – Olha lá o piu-piu. Pois saibam que ele nasceu e aprendeu a voar neste jardim.